Tereza se aposentou depois de longos anos de trabalho árduo e cansativo. Sonhava poder viajar ou mesmo passear sem compromisso aí pela cidade. Suas pernas já não a ajudavam muito, mas ela era corajosa e procurava sempre sair sozinha e se esforçava para apanhar o ônibus circular para um passeio. O ônibus possuía degraus altos, quase inatingíveis por suas pernas curtas e doloridas, mas a expectativa do passeio a animava. Assim, dirigia-se ao ponto de ônibus.
Uma chuvinha fina começava a cair e a molhar Tereza. Ela não se importava, pois já não tinha guarda-chuva, mas pensava que logo, logo a condução chegaria. Lá na esquina apareceu o ônibus e Tereza se animou. O ônibus parou e algumas pessoas entraram pela porta traseira, mas a da frente onde Tereza havia se posicionado não se abriu. Ela tinha o direito de não pagar, tinha carteirinha de aposentada... Bateu na porta em busca de atenção, mas o motorista a olhou com descaso através do vidro e pisou no acelerador, deixando Tereza desolada, com aquele olhar de tristeza que se apodera dos que embora tendo direito a algo, não o desfrutam. Fazer o quê?... Nada. Imediatamente, pensou Tereza.
Roque precisava do remédio para sua bronquite. Tinha passado toda a noite tossindo e com falta de ar. O dinheiro que possuía, não dava para adquirir o medicamento. Foi até a farmácia onde comprava. Pensava que talvez conseguisse um desconto ou um genérico com a quantia que possuía. Nada lhe foi favorecido. Triste, correu até o Posto do SUS. Nada de complacência por parte dos atendentes que olharam friamente, com desprezo e o aconselharam a voltar na semana seguinte... Roque respirou fundo, se acalmou um pouco e teve um pensamento. Fazer o quê?... Nada.
Terezas, Roques e Antônios existem aos montes por aí... Um pouco mais de atenção por parte dos governos, das autoridades, um pouco mais de amor para com o próximo, minoraria a dor, o sofrimento de muitos e eles, os muitos desprotegidos, não precisariam suspirar e dizer num conformismo dolorido: Fazer o quê?... Nada.
As agruras da aposentadoria, da doença e da velhice poderiam ser suavizadas se houvesse no coração do homem um pouco de misericórdia, um pouco de amor. Infelizmente o egoísmo prevalece. Fazer o quê?...
Autor: Daisy Marisa de Ferreira Gomes
Fonte: Portal das Águas